Um capítulo de amostra · Mistério gótico

Capítulo I · Thornwood5 min

Uma chegada

A casa que escreveu primeiro

O convite tinha chegado numa terça-feira, numa caligrafia que mais tarde ela juraria ser a dela, embora nunca tivesse tido tinta tão negra. Thornwood, dizia. Venha antes dos outros. Tem uma carta que diz respeito a você.

Não contou para ninguém aonde ia. O trem se esvaziava a cada parada até sobrar só ela, e o fiscal, quando veio, não pediu a passagem dela — só acenou, como se estivessem esperando por ela fazia um tempo.

Ao anoitecer, a casa se erguia contra a colina como um fôlego suspenso. Uma única janela estava acesa.

Subiu os degraus porque os degraus estavam ali, e porque voltar atrás seria admitir que tinha vindo. A porta cedeu antes que ela a tocasse, como cede uma frase antes da sua última palavra.

A porta dava para um saguão que cheirava a cera de abelha e pedra fria, e a alguma coisa por baixo das duas: o cheiro adocicado de papel dos cômodos onde se guardam cartas por tempo demais. Uma fileira de velas queimava ao longo do rodapé, todas recém-acesas, a cera ainda sem escorrer. Alguém tinha feito isso fazia menos de quinze minutos. Ninguém veio ver quem havia chegado.

Ela não cruzou a soleira. Ficou com a ponta das botas na beira do degrau gasto, onde a pedra tinha afundado sob gerações de passos, e deixou que os olhos entrassem sem permissão no lugar dela.

À esquerda, uma escada subia para o escuro. À direita, um relógio de pêndulo tinha parado às quatro para as quatro, o pêndulo completamente imóvel, como se tivesse recebido ordem de esperar. As paredes eram cobertas de retratos, e todos tinham sido virados para o reboco. Só as molduras douradas e o verso pálido das telas olhavam para ela, cada uma marcada a giz com uma única inicial.

Ela as leu sem querer. E. H. M. A. E de novo. Depois a sua própria inicial, na quarta moldura a partir da porta, e mais uma vez, mais adiante, onde a luz das velas ia rareando, numa tela menor que as outras. Tinha o tamanho em que se pinta uma criança.

Numa mesa no centro do saguão havia uma bandeja de prata, e na bandeja, um envelope. Mesmo do degrau ela via que estava endereçado. Mesmo do degrau ela reconheceu a letra.

A mesma tinta negra. A mesma inclinação para a frente nas maiúsculas, o mesmo laço impaciente na última letra que as professoras tinham tentado corrigir sem sucesso. O nome dela, escrito do jeito que ela escrevia quando estava cansada e ninguém estava olhando. Embaixo, menor: Abrir na biblioteca, e não antes.

Uma tábua rangeu no andar de cima. Não era o gemido longo da madeira velha se acomodando, e sim uma nota única e deliberada, o som de alguém mudando o peso de um pé para o outro para escutar melhor. Ela olhou para cima. A escada não devolveu nada. Em algum lugar lá em cima, a janela acesa que ela tinha visto da estrada devia pertencer a um quarto, e o quarto a alguém, e esse alguém tinha ouvido a porta.

— Olá — ela disse, e a palavra entrou na casa e não saiu mais.

Pensou no aceno do fiscal. Pensou na estação, que não tinha nenhum nome pintado na placa, só um lampião, um banco e uma trilha de carroça subindo entre os rododendros, como se a linha tivesse sido construída para aquela casa e aquela chegada. Pensou, com uma clareza que a assustou, que não se lembrava de ter escrito o convite, e também não se lembrava de não ter escrito.

O frio saiu do saguão numa expiração lenta, e com ele um som tão fraco que ela podia ter imaginado: uma pena correndo sobre o papel, em algum ponto do escuro, no alto da escada. Traçou uma linha, parou e começou outra.

Atrás dela, o terreno ia se apagando na última luz do dia. Ela distinguia a forma de um jardim murado, uma estufa cujos vidros quebrados tinham ficado prateados com a lua nascendo, e um caminho de cascalho claro que contornava a ala leste em direção a algo baixo e quadrado. Uma capela, talvez, ou um mausoléu. Um lampião ardia na porta, embora ninguém pudesse tê-lo acendido sem atravessar o gramado bem na frente dela.

Duas luzes, então. Uma em cima, outra embaixo. Duas pessoas esperando por ela, ou uma só que se movia mais rápido do que uma pessoa deveria.

A casa queria que ela se anunciasse; ela tinha tanta certeza disso quanto se tem de estar sendo observada num quarto vazio. A casa tinha escrito primeiro. Tinha deixado o nome dela numa bandeja de prata e virado os rostos para a parede para não ficar encarando. Uma espécie de cortesia. O terreno, ao contrário, não tinha prometido nada. O que estivesse esperando no fim daquele caminho de cascalho não a tinha chamado, e talvez pudesse contar algo que a casa preferia que ela não soubesse.

Ela se perguntou qual dos dois tinha escrito a carta da bandeja, qual tinha escrito o convite, e se a resposta para as duas perguntas era ela mesma.

A pena parou. No silêncio ela ouviu o próprio pulso, e por baixo dele a batida suave e paciente de uma pena sendo pousada numa escrivaninha, como se quem a segurava tivesse terminado uma frase e estivesse esperando para ver como ela começaria a próxima.

Ergueu a mão para a porta aberta, os nós dos dedos a dois centímetros da madeira.

Uma escolha que só você faz

→ Bater à porta e se anunciar
→ Percorrer primeiro o terreno, sem ser vista

É aqui que a sua história começaria.

No StoryStepper o capítulo seguinte é escrito a partir da escolha que você acabou de fazer — um episódio privado todas as manhãs, escrito só para você. Comece sua história e comece a construir a sua.

Começar sua história