Um capítulo de amostra · Mistério gótico

Capítulo I · St Aldric’s5 min

Um quarto trancado

A sala de leitura

A sala de leitura de St Aldric’s estava trancada por dentro havia trinta e um anos, e a faculdade simplesmente tinha aprendido a dar a volta nela.

Tobias Wren ouviu isso na primeira noite, entre carneiro e vinho tinto frio, num refeitório onde cabiam duzentas pessoas e jantavam onze. O semestre tinha terminado na semana anterior. Os alunos tinham ido para casa, para as famílias e o aquecimento central, e os professores que ficaram jantavam na mesa alta embaixo de uma fileira de retratos escurecidos, falando com a voz baixa e satisfeita de quem não tem mais nada a provar.

— É melhor o senhor deixar essa sala em paz — disse a diretora. A doutora Hester Marrow era uma mulher magra de uns sessenta anos, com cabelo branco bem curto e um anel de sinete que ficava girando enquanto falava. Ela o tinha contratado por carta, por causa de uma tese que quase ninguém tinha lido, para catalogar os papéis de um professor morto em 1994. A carta não mencionava nenhuma sala trancada. — Todo mundo acaba deixando. É um hábito fácil de pegar.

Ele perguntou por que estava trancada.

— Porque o professor Halloran trancou — ela respondeu — e depois preferiu não sair. — Um professor mais para o fim da mesa riu, e parou de rir quando viu que ela não ria.

O resto ele foi montando durante os queijos. Em dezembro de 1994, Aurelian Halloran tinha entrado na sala de leitura com um lampião e uma garrafa térmica de chá e passado o ferrolho. Depois de três dias sem notícias, os porteiros tiraram a porta das dobradiças. Encontraram o professor sentado à escrivaninha, com a caneta na mão, as janelas emperradas por camadas de tinta e a única chave no bolso do colete. O legista disse que foi o coração. A faculdade recolocou a porta, girou a chave pelo lado de fora e a entregou à diretora, que a guardava desde então.

Os aposentos de Tobias ficavam no alto da escada do pátio antigo: uma saleta com uma lareira a carvão que soltava fumaça quando o vento vinha dos pântanos, um quarto estreito como um banco de igreja e onze caixas de arquivo empilhadas contra a parede como um segundo orientador, cheio de desaprovação. Ele acendeu o fogo, fez chá no fogareiro e começou a trabalhar, porque nunca tinha conseguido dormir num lugar novo e não via motivo para começar agora.

Os papéis cheiravam a mofo e fumo de cachimbo. Anotações de aula, listas de leitura, uma briga de nove anos com um homem de Leiden sobre a datação de um saltério. A letra de Halloran era pequena e furiosa, muito inclinada para a direita, e ele escrevia sempre com tinta verde.

Já passava da uma quando Tobias encontrou a primeira coisa errada. Uma carta, arquivada fora de ordem no fundo da caixa sete, com a mesma tinta verde e a mesma letra furiosa. Estava datada de quatro de março de 2003. Nove anos depois de o homem que a escreveu ter sido carregado para fora da sala de leitura.

Ele leu a data três vezes. Depois ficou muito quieto, porque já tinha visto aquela tinta antes, muito antes daquela noite.

Todo outono da sua infância, chegava um cheque ao internato beneficente em Norfolk que o tinha acolhido depois da morte da mãe. Pagava a mensalidade, o uniforme, a passagem de trem de volta para lugar nenhum. Vinha sem carta, só com um cartão que dizia Da parte de um amigo da sua falecida mãe, e vinha assinado, em tinta verde, com um nome que ninguém nunca tinha conseguido decifrar. Ele guardava um daqueles cartões na carteira havia vinte anos. Não precisava tirar para conferir. Conhecia o ângulo daquelas hastes como conhecia o próprio rosto.

Muita gente usa tinta verde, disse a si mesmo. Era o tipo de coisa que um homem sensato diz a si mesmo à uma e meia da manhã.

Enfiada na dobra da carta havia uma chave. Pequena, de latão, gasta na argola, com uma etiqueta de papel amarrada por um pedaço de fita desbotada. Na etiqueta, a lápis, estava escrito S.L.

Ele não se lembrava de ter decidido descer. Lembrava do frio da pedra através das meias, da lua deitada sobre o pátio como uma laje branca, do suspiro da porta corta-fogo se fechando atrás dele no pé da escada. A sala de leitura ficava no fim do corredor leste, depois dos retratos de diretores mortos e de um aquecedor que batia como alguém pedindo para entrar.

A porta era de carvalho cravejado de ferro, mais escura que os painéis em volta. Por baixo dela aparecia uma linha fina de luz.

Ele parou. A linha não tremia como a de uma vela, nem tinha o cinza chapado da lua. Era quente, amarela e constante, a luz de um lampião baixo para leitura. Enquanto ele olhava, alguma coisa passou na frente dela, uma sombra lenta indo de um lado a outro da porta, e lá de dentro veio o sussurro seco de uma página sendo virada.

— Eu avisei — disse a diretora atrás dele.

Ela estava na curva do corredor, de roupão xadrez, com uma vela na mão e o rosto perfeitamente calmo. Ele não a tinha ouvido chegar. Fechou os dedos em volta da chave no bolso, e viu os olhos dela descerem até a mão dele e depois, sem pressa, voltarem para o seu rosto.

— Em dezembro isso acontece — ela disse. — O eletricista já veio quatro vezes. Vá dormir, senhor Wren. — Virou-se para ir embora e parou, a chama da vela se inclinando para o escuro. — Amanhã conversamos sobre a sua mãe. Imagino que o senhor tenha perguntas. Prefiro que as faça para mim.

Os passos dela foram se afastando pelo corredor, e a luz junto. A linha embaixo da porta continuou onde estava. A chave tinha esquentado no punho fechado. Dentro da sala de leitura, sem pressa e sem engano possível, mais uma página virou.

Uma escolha que só você faz

→ Abrir a sala de leitura esta noite
→ Seguir a diretora e perguntar sobre a mãe

É aqui que a sua história começaria.

No StoryStepper o capítulo seguinte é escrito a partir da escolha que você acabou de fazer — um episódio privado todas as manhãs, escrito só para você. Comece sua história e comece a construir a sua.

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