Um capítulo de amostra · Romance sombrio

Capítulo I · Cais dos Curtidores5 min

Uma visita

Dez minutos para fechar

O homem que era dono da dívida do irmão dela veio cobrá-la dez minutos antes de fechar, e não bateu na porta.

Nadia Ferrant ouviu o sino da oficina soltar sua nota fina e rachada e não levantou os olhos. Estava ajustando o cavalete de um violoncelo que tinha chegado em quatro pedaços; o bordo estava teimoso, e quem quisesse falar com ela àquela hora podia esperar. A chuva batia na claraboia. O cais lá fora cheirava a diesel e a casca de ostra. Descendo a rua, um bar tocava a mesma música pela terceira vez.

— Já fechamos — ela disse.

— A placa diz outra coisa. — A voz era grave, sem pressa, com a paciência de quem nunca na vida precisou esperar muito. — Posso virá-la para você, se quiser.

Aí ela olhou. Ele estava parado logo depois da porta, com a chuva ainda nos ombros: casaco escuro, sem guarda-chuva, sem chapéu. Alto, mas não era isso que ocupava a sala. Era a quietude. Quase todo mundo que entrava na oficina tocava em alguma coisa: passava o dedo numa voluta, beliscava uma corda frouxa, perguntava que cheiro era aquele. Cola de couro, sempre cola de couro. Aquele homem mantinha as mãos nos bolsos e olhava para ela como se os instrumentos fossem móveis e ela fosse a única coisa na sala que valesse a pena avaliar.

Ela conhecia aquele rosto. O porto inteiro conhecia, do mesmo jeito que conhecia o desenho dos guindastes contra o céu. Teodor Casarin. Os Casarin eram donos dos galpões do cais norte, de dois restaurantes, de uma empresa de navegação com um nome inocente e — segundo a carta que o irmão tinha deixado numa caixa de sapatos debaixo da cama — de Luca Ferrant, de corpo e alma, pela quantia de quarenta mil.

— Se veio por causa do Luca — ela disse, aliviada porque a voz não tremeu —, ele morreu. Você deve ter ficado sabendo. O enterro foi em março. Você não mandou flores.

— Mandei flores. — Uma pausa. — Lírios brancos. Você deu para a mulher que varre a escadaria da capela.

Um calor subiu pela garganta dela. Tinha feito exatamente isso. Não sabia que alguém estava olhando.

— Então você sabe que eu não tenho quarenta mil. Tenho uma oficina com goteira e um violoncelo que não quer ser violoncelo. — Ela pousou o cavalete na bancada com muito cuidado, porque as mãos queriam atirá-lo longe. — O que quer que ele te devesse, morreu junto com ele.

— Morreu. — Teodor avançou até o círculo amarelo da luminária, e ela viu que os olhos dele não eram pretos, como tinha imaginado pelas fotos, mas de um cinza escuro e inquietante. — Eu cancelei a dívida no dia em que ele morreu. Não é por isso que estou aqui. — Deixou a chuva ocupar o silêncio por um instante. — Seu irmão tinha um violino. Antigo, italiano, com um verniz da cor de sangue seco e uma rachadura na lateral de baixo que alguém consertou mal há muito tempo. Ele trouxe para você em janeiro e pediu que você guardasse.

Nadia não olhou para a prateleira do fundo. Não olhou para o estojo enrolado num cobertor roído de traça atrás das latas de breu. Continuou olhando para ele, e alguma coisa se mexeu no canto da boca dele. Não era um sorriso. Era reconhecimento.

— Você não olhou — ele disse baixinho. — Ótimo. Não olhe. Não na frente da janela. Tem um carro parado do outro lado do cais desde as seis, e não é meu. — Falou como outro homem falaria do tempo. — O pessoal lá dentro não está interessado em quarenta mil. Eles querem o que o Luca escondeu dentro daquele instrumento, e acham que você sabe o que é.

— Eu não sei.

— Eu acredito em você. Eles não vão acreditar.

De repente a oficina pareceu minúscula. A claraboia, as janelas compridas para o cais que ela sempre tinha amado porque deixavam o fim de tarde cair sobre a bancada: tudo era vidro. Pensou no Luca aos vinte anos, esparramado naquela mesma bancada com as botas para cima, dizendo para ela não se preocupar, que ele tinha um plano. Ele sempre tinha um plano.

— E você? — ela perguntou. — Está interessado em quê?

Teodor pensou na pergunta como se ela merecesse honestidade, e isso a assustou mais do que uma mentira teria assustado. — No começo, no violino — ele disse. — Agora já não tenho tanta certeza. — Deu mais um passo. Não o bastante para tocá-la; o bastante para que ela sentisse o cheiro da chuva no casaco dele e de algo por baixo, cedro e fumaça. Ele olhou para as mãos dela — a cola seca nos nós dos dedos, a pequena cicatriz no polegar de uma goiva que tinha escapado —, depois para a boca dela e, de propósito, desviou o olhar.

— O que eu estou oferecendo é isto. Hoje à noite eu te acompanho até em casa. Amanhã um homem meu fica sentado na frente desta porta, e você finge que não vê. Daqui a uma semana, quando eu souber quem está naquele carro, você me entrega o violino e eu garanto que ninguém nunca mais vai estacionar neste cais. Depois disso você não me vê mais.

— E se eu disser não?

— Então eu vou embora. Não vou te arrastar para lugar nenhum, Nadia. Não é assim que funciona. — Algo mais duro passou por trás do cinza. — Mas vou ficar do outro lado da rua, no meu carro, até suas luzes se apagarem, porque também não vou deixar eles entrarem. Você decide se isso é um consolo.

Ela devia ter medo dele, e uma parte sensata dela tinha: a parte que tinha lido a carta do irmão três vezes e queimado na pia. Mas outra parte, mais antiga e bem menos sensata, tinha reparado que ele dizia o nome dela como se esperasse fazia muito tempo para dizê-lo. Que ele sabia dos lírios. Que fazia meses que ele cuidava dela de algum lugar que ela não conseguia ver. Do outro lado do cais preto e molhado, faróis se acenderam. Ficaram acesos. Apagaram. Teodor não se virou; tinha visto o reflexo nos olhos dela. — A escolha é sua — ele disse. — Mas escolha logo.

Uma escolha que só você faz

→ Deixar que ele a acompanhe até em casa
→ Mandar ele embora e trancar a porta

É aqui que a sua história começaria.

No StoryStepper o capítulo seguinte é escrito a partir da escolha que você acabou de fazer — um episódio privado todas as manhãs, escrito só para você. Comece sua história e comece a construir a sua.

Começar sua história