Um capítulo de amostra · Drama de vingança

Capítulo I · O Ashby Grand5 min

Uma leitura

Quatro e vinte

Rowan Ashby tinha sido informado, por escrito, por três advogados diferentes, de que não era bem-vindo no enterro do avô. Então ele esperou o último carro sair do cemitério e foi, em vez disso, para a leitura do testamento.

O Ashby Grand continuava onde sempre esteve, no promontório acima de Porthcarrow, branco como um bolo de casamento e mais ou menos tão firme numa tempestade. Lá embaixo o mar tinha cor de estanho e subia devagar contra as pedras. As gaivotas ficavam paradas no vento sem mexer as asas. Ele estacionou o carro alugado no fim da entrada e ficou um minuto com o motor estalando, olhando para o terraço onde, doze anos antes, o avô tinha mandado ele fazer uma mala e não voltar.

Ele tinha dezenove anos. Onze mil libras tinham sumido do cofre do hotel num feriadão, e só três pessoas sabiam a combinação: o velho, o primo Marcus e Rowan. Marcus estava em Bristol, segundo ele. Rowan estava na casa dos barcos com Delia Pryce, segundo ele. E então Delia, pálida na sala de estar, disse que não, que naquela noite tinha ido para casa cedo. Que não tinha visto Rowan depois das nove.

Foi só isso. Uma frase, da única pessoa em cuja palavra ele teria apostado a vida. Ele foi embora na manhã seguinte, no primeiro ônibus, e em doze anos abriu dois restaurantes em Londres e perdeu um, aprendeu a dormir quatro horas por noite e nunca se permitiu pensar no motivo de ela ter dito aquilo.

A porta da frente estava aberta. Ninguém o impediu. O hall tinha o cheiro de sempre, de cera de abelha, casacos molhados e o sal que entrava em tudo, e o relógio de pêndulo no pé da escada tinha sido parado às quatro e vinte, do jeito antigo, pelo morto. Ele ficou um instante embaixo dele. Depois entrou na sala, e a conversa morreu como se alguém tivesse puxado um fio da tomada.

Estavam todos lá. Tia Verity de preto, empertigada na poltrona de orelhas, a boca apertada numa linha tão fina que parecia costurada. Dois primos de Truro de quem ele mal se lembrava. O senhor Penrose, o advogado, ajeitando papéis na mesa de jogo com a cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar. E perto da janela, com uma mão no encosto de uma cadeira como se ela já fosse dele, Marcus.

Marcus tinha encorpado. Terno bom, cor ruim no rosto, a tranquilidade de um homem que passou doze anos ouvindo que era o herdeiro. — Ro — disse ele, como se tivessem se visto na semana anterior. — Você não devia ter vindo.

— Fui convidado. — Rowan ergueu a carta, com o timbre de Penrose no alto. — Pelo jeito.

Então ele a viu.

Delia estava sentada no banco da janela, meio na sombra, as mãos cruzadas no colo. Usava um vestido verde-escuro e uma aliança, e o cabelo estava mais curto do que ele lembrava, raspado na nuca. Ela não desviou o olhar quando ele olhou para ela. Isso era novo. Aos dezenove, ela nunca conseguia sustentar o olhar dele quando estava escondendo alguma coisa. Agora sustentava com firmeza, e o que ele viu ali não era bem culpa. Era algo mais perto de medo.

— Senhora Ashby — disse ele. Não sabia que ia sair daquele jeito até sair.

Alguma coisa tremeu no canto da boca dela. — Rowan.

— Se me permitem, vamos começar — disse o senhor Penrose, e pigarreou, e começou.

A primeira parte foi como todo mundo esperava. Legados para os funcionários. O chalé de Tregarrow para Verity. Um quadro para a igreja. O hotel, as terras e as dívidas — e havia dívidas, Rowan percebia pelo cuidado com que Penrose lia os números — para Marcus Ashby, neto, em reconhecimento pelos anos de serviço leal. Marcus soltou um ar que claramente estava prendendo desde o enterro. Verity fez que sim com a cabeça, como se um hino tivesse terminado do jeito certo.

— Existe — disse Penrose — um codicilo.

A sala ficou em silêncio total. Lá fora uma gaivota gritou, e a janela de guilhotina chacoalhou no batente.

— Datado do dia catorze do mês passado. Com testemunhas e em ordem. — Penrose ajeitou os óculos. — “Eu, Edmund Ashby, em pleno gozo das minhas faculdades, e tendo tomado conhecimento há pouco de certos fatos sobre os acontecimentos de agosto de doze anos atrás, revogo o legado da participação majoritária na Companhia Hoteleira Ashby Grand e a deixo, em vez disso, para o meu neto Rowan, com o meu pedido de desculpas, que está atrasado. Os detalhes estão na carta lacrada, que deve ser entregue somente a ele.”

Penrose tirou um envelope da pasta. Papel creme, a letra pesada do velho na frente: Rowan. Leia isto antes de decidir qualquer coisa.

Marcus tinha ficado da cor das cinzas na lareira. — Ele estava doente — disse. — Estava confuso, estava tomando morfina. Penrose, você não pode estar achando que… — Verity levou a mão ao pescoço. Um dos primos de Truro tinha começado, bem baixinho, a rir.

Rowan pegou o envelope. Era mais pesado do que uma carta devia ser. Alguma coisa rígida lá dentro, uma fotografia talvez, ou uma chave. Ele sentia a sala inteira olhando para as mãos dele.

Então Delia se levantou do banco e passou entre ele e o marido a caminho da porta, e ao passar os dedos dela roçaram nos dele, e Rowan sentiu o quadradinho de papel dobrado que ela deixou na palma da sua mão. Ele só olhou depois que ela saiu. Poucas palavras, na letra pequena e reta que ele um dia conheceu melhor do que a própria: Casa dos barcos. Oito horas. Desculpa.

O relógio do hall continuava parado às quatro e vinte. Marcus estava repetindo o nome dele, mais alto agora. O envelope estava morno de tanto ele apertar. Ele tinha talvez um minuto antes que alguém naquela sala fizesse algo que nenhum deles poderia desfazer.

Uma escolha que só você faz

→ Abrir a carta ali, na frente de todos
→ Ir até a casa dos barcos ouvir Delia

É aqui que a sua história começaria.

No StoryStepper o capítulo seguinte é escrito a partir da escolha que você acabou de fazer — um episódio privado todas as manhãs, escrito só para você. Comece sua história e comece a construir a sua.

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