Um capítulo de amostra · Histórico

Capítulo I · Bath, 18165 min

Uma proposta

A cláusula onze

O contrato tinha quatro páginas, e Clara Ashdown tinha escrito cada linha sozinha, à luz de vela, nos fundos de uma tipografia que não ia ser dela por muito mais tempo.

Agora ele estava dobrado na sua bolsinha, junto às costelas, enquanto o Pump Room se enchia com o movimento das onze horas. Da fonte subia o vapor, num hálito fino e mineral. Em algum lugar atrás dela, uma viúva da nobreza reclamava das águas sem falar com ninguém em particular, e um trio de cordas avançava com diligência por uma peça de um compositor de quem ninguém ia se lembrar até a Páscoa.

Clara tinha escolhido o Pump Room porque era público. Ali uma dama podia falar com um cavalheiro sem que ninguém imaginasse que ela tinha algo a dizer.

O capitão Thomas Merrow estava perto da janela do fundo, exatamente onde a sra. Pell tinha prometido que ele estaria. Era mais alto do que ela esperava, e parecia mais cansado: um homem de casaca boa, que vinha sendo boa havia vários anos. Segurava um copo de água termal como se alguém tivesse colocado aquilo na mão dele e ele ainda não tivesse achado um lugar educado para largá-lo. Meio soldo, a sra. Pell tinha dito. Veterano da guerra na Península. Nenhuma família digna de nota, e dívidas bem mais dignas de nota. Clara atravessou o salão antes que pudesse mudar de ideia.

— Capitão Merrow. — Não foi bem uma reverência, foi uma inclinação. — Sou a srta. Ashdown. O senhor há de perdoar a falta de apresentação. A sra. Pell me garantiu que perdoaria.

Ele olhou para ela um instante a mais do que seria confortável. Tinha olhos cinzentos, e ela percebeu que eles tinham o hábito de medir um ambiente antes de pousar em qualquer coisa. — A sra. Pell garante muitas coisas a muita gente — ele disse. — Ela me contou que a senhorita tinha uma proposta de negócios. Achei que fosse pedir uma contribuição para alguma subscrição.

— De certo modo. — Clara tirou as folhas e ficou segurando, sem oferecer ainda. — Meu pai era dono da Ashdown’s, na Westgate Street. Impressão e encadernação. Talvez o senhor tenha visto a placa.

— A do cisne dourado.

— O cisne dourado foi ideia da minha mãe. Meu pai morreu em janeiro. — Ela disse isso com a voz firme; tinha ensaiado. — Ele me deixou a tipografia com uma condição que o advogado dele lamentou muito e que o meu primo não lamentou nem um pouco. Eu herdo se estiver casada até o dia da Anunciação. Se não estiver, ela passa para o sr. Edmund Ashdown, de Bristol, que nunca compôs uma linha de tipos na vida e pretende vender as prensas como sucata antes do verão.

O trio terminou a peça. No breve silêncio que veio depois, o capitão Merrow pousou o copo no parapeito da janela com muito cuidado. — A Anunciação — ele disse. — Faltam nove semanas. E a senhorita veio ao Pump Room pedir a um desconhecido que se case com a senhorita.

— Oito semanas e cinco dias. E eu vim oferecer condições a um desconhecido. — Ela estendeu as folhas. — O senhor não precisa ler aqui. O essencial é simples. O senhor se casaria comigo em março. Receberia quatrocentas libras no mesmo dia, o que, pelo que entendi, é um pouco mais do que o senhor deve. Não teria nenhum direito sobre a tipografia nem sobre a renda dela, e eu não teria nenhum sobre o seu tempo. Quartos separados. Vidas separadas, se o senhor preferir. Depois de um ano, se um de nós quiser, cada um vive para o seu lado e ninguém fica sabendo.

Ele pegou as folhas. Não desdobrou. O polegar dele correu uma vez pela dobra, e ela se pegou olhando aquilo do jeito que se olha uma mão perto demais da chama de uma vela.

— Por que eu? — ele perguntou. Era a pergunta que ela menos tinha ensaiado, porque todas as respostas verdadeiras a envergonhavam. Porque a sra. Pell diz que o senhor é honesto a ponto de se arruinar. Porque o senhor vendeu a patente antes de vender o cavalo. Porque um homem sem nada a perder não pode ser comprado pelo meu primo, e um homem com dívidas pode ser comprado por mim.

— Porque é pouco provável que o senhor queira de mim alguma coisa que não esteja no contrato — ela disse.

Alguma coisa se mexeu no canto da boca dele. Não era um sorriso, mas um dia tinha sido. — A senhorita tem muita certeza disso.

— Tenho certeza do contrato.

Então ele desdobrou a primeira folha e leu, e ela ficou olhando ele ler. Ele lia do jeito que o pai dela revisava provas: devagar, os lábios levemente apertados, como se cada palavra lhe devesse uma explicação. No fim da segunda página ele parou, e ela soube qual cláusula tinha feito ele parar. Ela a tinha escrito por último, riscado duas vezes e escrito de novo. Cláusula onze: Nenhuma das partes será obrigada a fingir afeto em sociedade além do que a cortesia exige.

— A senhorita pensou em tudo — ele disse baixinho. — Ou quase tudo. — Ele dobrou as folhas nas dobras antigas e não devolveu. — Seu primo vai contestar. Um casamento feito em oito semanas com um capitão de meio soldo famoso por perder no carteado? Ele vai dizer que é uma farsa, e vai achar em Bristol um magistrado que concorde. Se quiser que isso se sustente, srta. Ashdown, vai ter que parecer outra coisa que não um contrato. — Ele fez uma pausa. — Vai ter que parecer que eu estou cortejando a senhorita.

A fonte soltou seu vapor. Do outro lado do salão, a sra. Pell tinha parado de fingir que não estava olhando. — A cláusula onze — Clara disse, e a voz dela não saiu tão firme quanto tinha ensaiado.

— A cláusula onze — ele concordou — teria que ser riscada.

Ele estendeu a mão, não para pegar a dela, mas para pegar a pena que Clara nem tinha percebido que estava segurando: a pequena pena de prata do balcão da Westgate Street, ainda suja da tinta das provas daquela manhã. Oito semanas e cinco dias. Um cisne dourado sobre uma porta. E um homem que tinha lido cada linha e encontrado a única de que ela não tinha certeza.

Uma escolha que só você faz

→ Riscar a cláusula onze e assinar
→ Exigir o contrato do jeito que está

É aqui que a sua história começaria.

No StoryStepper o capítulo seguinte é escrito a partir da escolha que você acabou de fazer — um episódio privado todas as manhãs, escrito só para você. Comece sua história e comece a construir a sua.

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