Um capítulo de amostra · Fantasia
Um tributo
O nome que se deve
A tira do sorteio tinha sido talhada no freixo da praça, como acontecia a cada sétimo inverno, e quando o meirinho a virou para a lanterna, dizia Tam. Maren Quill viu o irmão ler o próprio nome numa tira de madeira clara e entendeu, com aquela calma que vem logo antes do luto, que já tinha decidido.
À meia-noite ela estava junto à Pedra do Tributo, com o casaco dele abotoado por cima do seu e o boné enterrado até as sobrancelhas, embora não esperasse que o disfarce durasse. A pedra marcava o limite de Thornmere, onde as cercas vivas do vilarejo desistiam e começava a floresta antiga. A geada tinha prateado os espinheiros. Mais adiante, as árvores cresciam tão juntas que o escuro entre elas parecia sólido, como uma porta que alguém tinha esquecido de pintar.
Fazia onze anos que ela encadernava livros. Sabia fazer as coisas aguentarem. Tinha costurado na lombada do seu livro-caixa uma carta da mãe, a última que ela escreveu antes de a floresta levá-la, e estava sentindo a carta agora contra as costelas, um quadradinho duro de papel que dizia: Maren, não deixe o fogo apagar. A mãe tinha voltado de Thornmere depois de cumprir o seu ano. Tinha voltado mansa e distante, cheirando a grama cortada em pleno dezembro, e nunca mais tinha reconhecido o rosto da filha.
Os sinos do vilarejo pararam. Maren não ouviu o Guardião chegar. Num instante a trilha entre as árvores estava vazia; no seguinte, ele estava ali, como se sempre tivesse estado e só agora ela tivesse permissão para perceber.
Ele era mais alto do que as histórias diziam e menos bonito, o que, de algum jeito, era pior. As histórias davam a ele cabelos de prata e uma boca cruel. À luz da lanterna, o cabelo dele tinha o castanho apagado da samambaia no inverno, e a boca era só uma boca, um pouco rachada pelo frio. O que estava errado era a imobilidade. Nada nele se mexia com a respiração. O casaco era verde-acinzentado, cor de líquen, e havia espinhos costurados na gola, espinhos de verdade, com as pontas voltadas para a garganta dele.
— Você não é Tam Quill — ele disse.
— Não.
— O sorteio não é uma sugestão. — A voz era grave e estranhamente cortês, a voz de alguém lendo em voz alta um contrato que não redigiu. — O nome foi dado. O nome é devido.
— Então leve o meu. Sou irmã dele. Sou mais velha, sou mais forte e sei trabalhar. — Ela tinha ensaiado aquilo a subida inteira, e mesmo assim saiu rápido demais. — Ele tem catorze anos. Chora quando matam os gansos para a festa do solstício. Ele não ia servir de nada para você.
Enfim alguma coisa se mexeu no rosto do Guardião. Não um sorriso, mas a ideia de um, considerada e deixada de lado. — Você acha que levamos as pessoas para nos servir.
— Acho que você levou a minha mãe — disse Maren — e devolveu uma coisa que ainda usa o avental dela.
A geada dos espinheiros estalou toda de uma vez, com um barulho de mil ossinhos. Ela não se encolheu, embora quisesse. O Guardião ficou olhando para ela por um bom tempo, e Maren teve a impressão incômoda de que ele estava lendo seu corpo como ela lia uma encadernação danificada: onde a linha tinha aguentado, onde tinha cedido, onde a cola tinha sido passada grossa demais para esconder um rasgo.
— Elin Quill — ele disse baixinho. — Sete invernos atrás. Serviu na destilaria. Tinha muito jeito com bergamota. — Inclinou a cabeça. — Você tem as mãos dela.
A garganta de Maren fechou. Em sete anos, ninguém tinha dito o nome da mãe como se ele pertencesse a alguém que um dia esteve inteira.
— O que você fez com ela?
— Menos do que você pensa. Mais do que eu gostaria. — Ele olhou para o escuro atrás de si, e pela primeira vez ela viu que os espinhos da gola tinham tirado sangue, uma linha fina, seca e antiga, como se ele os usasse fazia muito, muito tempo. — Em Thornmere existem leis mais velhas do que eu. Uma delas diz que um substituto precisa ser pago. O que se oferece livremente não é o mesmo que o que se toma livremente.
— Diga o seu preço.
— Cuidado — ele disse, quase com doçura. — Na minha corte, essa frase já arruinou gente melhor do que você.
Ele saiu da trilha. A floresta não o seguiu, mas ela a sentiu se inclinar. De perto, ele cheirava a chuva na pedra e, muito de leve, a bergamota, e Maren o odiou por isso mais do que por qualquer outra coisa. Ele estendeu a mão com a palma para cima, como quem oferece ajuda para pular uma cerca. Não havia nada nela. E havia, ela entendeu, tudo.
— Esta noite existem três jeitos de passar pela pedra — disse o Guardião. — Você pode me dar o seu nome verdadeiro. Não Maren. O outro, o que a sua mãe sussurrou sobre o seu berço antes de esquecer você. Aí eu levo você no lugar do seu irmão, e você pertence a Thornmere por um ano e um dia. Ou pode negociar comigo, coisa que a sua mãe não fez, e vamos ver qual de nós dois lê melhor as letras miúdas. — Os olhos dele, ela viu então, tinham a cor da água funda debaixo do gelo. — Ou pode passar por mim e entrar na floresta sem ter dado nada nem prometido nada, e arriscar a sorte com a corte do jeito que ela é. Tem quem já tenha feito isso. Não recomendo.
Atrás dela, lá embaixo no morro, uma porta se abriu no vilarejo, e ela ouviu, ou achou que ouviu, Tam chamando seu nome. O de sempre. O que não significava nada para ninguém além dele.
O Guardião esperava, de mão aberta e espinhos na garganta. A geada começou a subir de novo pelos espinheiros, paciente como tinta.
É aqui que a sua história começaria.
No StoryStepper o capítulo seguinte é escrito a partir da escolha que você acabou de fazer — um episódio privado todas as manhãs, escrito só para você. Comece sua história e comece a construir a sua.
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